A dor de uma família em Conchal, interior de São Paulo, se transformou em questionamentos após a morte de Bernardo de Lima Mendes, de apenas 3 anos, vítima de uma picada de escorpião. O pai do menino, o tatuador Paulo Mendes, aponta falhas e uma série de demoras no atendimento prestado pelo Hospital e Maternidade Madre Vannini, onde a criança recebeu os primeiros socorros.
Paulo Mendes relatou que, na noite da última terça-feira (31 de outubro), estava brincando com o filho quando o escorpião picou Bernardo. Após matar o animal e levá-lo ao hospital, a família enfrentou uma triagem na qual o atendente recolheu o aracnídeo para mostrar à equipe médica. Contudo, a espera por atendimento e a reclamação de dor intensa por parte de Bernardo persistiram por um tempo na sala de espera.
Segundo o pai, um dos médicos estava sem paciente na sala, e foi necessária a intervenção de uma madre para que o profissional atendesse a criança. A aplicação de um soro para dor também demorou, conforme o relato. Paulo questionou se era um soro específico para picada de escorpião, mas foi informado de que o antiveneno só seria disponibilizado em caso de necessidade e que o filho ficaria em observação por seis horas.
O quadro de Bernardo piorou rapidamente, com o menino vomitando cerca de 10 vezes em 20 minutos e babando bastante. Ao indagar se os funcionários já haviam presenciado tais sintomas em outras crianças, Paulo ouviu uma resposta preocupante:
“Ele falou assim: ‘eu só vi em vídeo’, então eles não tinham preparo.”
A criança foi então levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da unidade.
Após três horas na UTI e com o agravamento dos sintomas, a equipe médica decidiu transferir Bernardo para outra unidade. Inicialmente, a família foi informada sobre Piracicaba, mas um leito foi encontrado na Santa Casa de Araras. A ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) levou aproximadamente 40 minutos para chegar e realizar a transferência. “No caminho, devido a demora também, ele já teve a primeira parada cardíaca”, lamentou Paulo Mendes.
Na Santa Casa de Araras, Bernardo recebeu seis ampolas do soro antiescorpiônico. O pai foi informado pela esposa de que o filho teve uma parada cardíaca de 10 minutos, ficando “praticamente sem respirar por 10 minutos” antes de ser entubado. Com a piora do quadro, os pais foram orientados a voltar para casa e, na manhã seguinte, quarta-feira (1º de novembro), foram chamados de volta ao hospital, onde receberam a triste notícia do falecimento do menino. O velório de Bernardo de Lima Mendes será nesta quinta-feira (2), das 7h30 às 11h, no Cemitério Municipal de Conchal.
A Prefeitura de Conchal, em nota, esclareceu que o município não é uma unidade de referência para armazenamento e aplicação de soros antivenenos. Conforme diretrizes da Secretaria Estadual de Saúde, os pontos de atendimento para soroterapia são definidos de forma regionalizada, sendo Araras designada como referência. Assim, pacientes de Conchal que necessitam do soro são encaminhados para a Santa Casa da cidade. A administração municipal não se posicionou sobre a demora no atendimento.
A Associação Filhas de São Camilo, por meio do Hospital e Maternidade Madre Vannini, manifestou profundo pesar pelo óbito de Bernardo. A instituição afirmou ter adotado “todas as medidas clínicas compatíveis com a capacidade da unidade”, incluindo acolhimento e avaliações médicas. O hospital ressaltou que não dispõe de UTI pediátrica nem integra a rede de pontos estratégicos para disponibilização de soro antiescorpiônico, cuja distribuição é definida pelo SUS e concentrada em unidades de referência. A nota atribuiu essas condições a “limitações estruturais do sistema público de saúde”.
O escorpionismo, especialmente causado pelo escorpião amarelo (Tityus serrulatus), é um grave problema de saúde pública no estado de São Paulo, com acentuado crescimento de casos, sobretudo no interior. Fatores como urbanização desordenada, acúmulo de entulho e a presença de insetos favorecem a proliferação desses aracnídeos, aumentando os riscos, principalmente para crianças e idosos, que são os mais vulneráveis. Em 2025, o Brasil registrou mais de 173 mil acidentes com escorpiões, com mais de 200 mortes. Em 2024, foram 201 mil casos e 126 óbitos.
Os acidentes com escorpiões podem variar de leves a graves, afetando o sistema nervoso e causando dor intensa no local da picada, que pode se estender para o membro inteiro. Casos moderados podem evoluir para suor excessivo, vômito e taquicardia. Em situações graves, além da dor intensa, pode ocorrer salivação, insuficiência cardíaca, edema pulmonar e até mesmo a morte.
Para evitar acidentes, o Instituto Butantan recomenda cuidados como manter a limpeza de quintais e jardins, evitar o acúmulo de lixo, entulho e materiais de construção, e vedar frestas e buracos em paredes e pisos. Os escorpiões buscam locais quentes e úmidos, e sua proliferação no meio urbano pode ser evitada com medidas preventivas.
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