Catalão e Rio Verde, GO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não poupou críticas nesta terça-feira (2) ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), acusando-o de agir como “traidor da pátria” ao pedir que o governo dos EUA, liderado por Donald Trump, impusesse um novo tarifaço de 25% sobre bens importados do Brasil. Em dois pronunciamentos — um em Catalão (GO) e outro em Rio Verde (GO) — Lula classificou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como “vendilhões da pátria” e “família metralha”, além de questionar o que mereceriam aqueles que pedem intervenção estrangeira no Brasil.
“Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. São na verdade vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores”, declarou o presidente, citando diretamente a reunião de Flávio Bolsonaro com o senador americano Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA. Lula ainda ironizou: “Imbecil. Ele não sabe que não vai prejudicar o Lula, ele vai prejudicar o povo brasileiro, vai prejudicar os empresários brasileiros, vai prejudicar o agronegócio”.
Em tom de provocação, o presidente lembrou que, em julho de 2025, Flávio Bolsonaro comemorou quando os EUA aplicaram tarifas contra produtos brasileiros. “No dia 9 de julho de 2025, no dia que o Trump nos puniu, ele disse: ‘Obrigado Trump, faça o Brasil livre de novo’”, recordou Lula, antes de questionar: “Todo covarde é assim, fala a merda que fala, depois não tem coragem de assumir o que fala e fica tentando mentir.”
Em resposta às acusações, Flávio Bolsonaro, em cerimônia na Câmara Municipal de Belo Horizonte, sugeriu que a fala de Lula poderia ser um “apito de cachorro” — termo usado para indicar mensagens codificadas a grupos criminosos — incentivando atentados contra sua vida. “Bastou eu atuar contra PCC e CV que ele [Lula] faz uma espécie de apito de cachorro para as facções me executarem”, afirmou, pedindo que o presidente seja investigado por “incitação ao crime”.
A tensão entre os aliados de Lula e os bolsonaristas ganhou ainda mais corpo quando o presidente defendeu o Pix, mecanismo de pagamentos instantâneos do Banco Central, como uma ferramenta estratégica do Brasil. “Eu fiquei preocupado porque o pix assusta eles [norte-americanos]. Eu falei pro Trump: ‘Oh, cara, ao invés de ter medo do pix, coloca o pix para funcionar nos Estados Unidos’”, declarou. Em Rio Verde, Lula voltou a citar o Pix indiretamente, ao afirmar que “o tal do bolsonarista foi aos Estados Unidos e pediu para o Trump intervir no pix brasileiro”.
Contexto da crise comercial
A decisão dos EUA de propor um novo tarifaço ocorre após o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) concluir uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, que autoriza retaliações contra práticas consideradas injustas ou discriminatórias. O Brasil é acusado de barreiras ao acesso ao mercado de etanol, desmatamento ilegal, discriminação contra empresas americanas em redes sociais e deficiências em práticas anticorrupção. O relatório definitivo deve ser publicado até 15 de julho, mas a decisão final sobre a aplicação das tarifas cabe a Trump.
Segundo o economista Sergio Vale, da consultoria MB Associados, os principais produtos brasileiros afetados serão máquinas e equipamentos, madeira, manufaturados e produtos elétricos, como transformadores. O governo brasileiro estima que 21% das exportações nacionais aos EUA serão atingidas, com 25% dos produtos já sofrendo sobretaxas por meio de outras medidas, como a Seção 232 (aço, alumínio e autopeças).
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